A quem interessa de fato a Rio + 20?
A nossa turma de Meio Ambiente, aqui de Arraial do Cabo (IFRJ), irá ver (in loco) o que acontecerá durante a conferência Rio + 20. O encontro será em junho (do dia 20 ao dia 22) e, com toda certeza, estamos ansiosos para participar e fazer as perguntas certas (para os cientistas que encontrarmos por lá). Tudo isso, é claro, sem perder o foco das principais questões, entre elas: “qual será o nosso futuro no planeta terra?”.
“Como assim… Nosso futuro no planeta terra?”, de repente você questiona aí do outro lado.
Eu explico: “estamos presenciando no nosso dia a dia, que o homem devasta selvagemente o planeta em busca do desenvolvimento. Nós, os ditos civilizados, somos reféns da ignorância do falso progresso e assim conduzimos as nossas vidas para um iminente desastre ambiental. Pareço pessimista? Será? Vamos aos fatos. O homem, com sua fúria em conseguir se sustentar através do poder, perderá sua vez nesse cenário”.
“Por quê?”, pergunta você.
Eu respondo (parafraseando um texto do Greenpeace): “A terra tem 4,6 bilhões de anos. O seu florescimento, como local habitável, veio depois de bilhões de anos. Ou seja… É um planeta muito novo, se compararmos com o seu tempo de vida no cosmo. Assim como os dinossauros e os grandes répteis; e depois os mamíferos e os primeiros hominídeos (que aprenderam a caminhar eretos), tudo aconteceu muito recente. Principalmente se falarmos da presença do homem moderno na sua superfície”.
“E daí… o que isso tem haver com destruição ambiental?”, você questiona.
Respondo: “Bem… Foi através do homem que surgiu a revolução industrial, fazendo do planeta (que era um imenso paraíso) um depósito de lixo. As pragas multiplicaram-se; houve a extinção de inúmeras espécies; o homem saqueou do planeta para obter combustíveis; armou-se até os dentes para travar, com suas armas nucleares inteligentes, a última de todas as guerras, que destruirá definitivamente o único oásis da vida no sistema solar. A evolução natural de 4,6 bilhões de anos seria anulada pelo homem (um hóspede muito recente e mal educado que coloca tudo a perder)”.
Tudo isso só tem um nome: Falso progresso!!!
As discussões na sala de aula esquentaram na última semana. E vários são os pontos analisados por nós. Por exemplo, por que no Brasil os fóruns de discussões (apresentados na Eco-92) não chegaram a base popular? Quais foram os resultados concretos deste evento na vida cotidiana das pessoas? Será que tudo não passou de um tremendo jogo de encenação?
Enquanto isso algumas empresas e prefeituras do interior brasileiro começam a se mexer para orquestrar uma conversa de boa vizinhança com o meio ambiente. Pelo que estamos notando (mais uma vez) tudo não passa de um grande simulacro. Tanto o poder público como os empresários, calibrados por enredos grotescos, ensaiam seus discursos na chamada economia verde.
Obviamente, nós como ecólogos, observamos que um dos maiores problemas da falta de comprometimento da Eco-92, é exatamente a ausência de uma cultura com novas implementações em condutas pedagógicas, que possa multiplicar a consciência ambiental das pessoas. Por isso as falhas são graves. Faltam agentes transformadores nas comunidades. Os partidos, por sua vez, preferem viver no sonambulismo dos seus contextos de comando e não compreendem o tema com profundidade. Pergunte a qualquer vereador da sua cidade, quais foram os pontos importantes apresentados durante a Eco-92, para saber se ele conseguirá responder.
Ambientalistas X ruralistas
Até hoje não sabemos qual caminho a tomar quando o tema é sustentabilidade ambiental. Mais exemplos? O novo código florestal é uma total aberração. O seu juízo de valores míngua o exercício da cidadania. O novo código afetará diretamente centenas de biomas e o bem estar de muitas vidas.
Na minha opinião, essa briga é completamente desigual. De um lado há pessoas comprometidas de fato com a questão ambiental; e do outro lado, temos a bancada ruralista (mais poderosa e ameaçadora).
Por que a bancada ruralista é mais poderosas do que a dos ambientalistas? Todo o aparato da estrutura burocrática é favorável aos ruralistas. Vamos aos fatos: para apresentar dois relatórios, a bancada contou com o apoio da Embrapa Monitoramento por Satélite, com resultados extremamente discutíveis.
Em um deles, conhecido como “Alcance Territorial Indigenista”, serviu para sustentar a tese de um suposto engessamento territorial da agropecuária brasileira pela legislação. O relatório chegou a afirmar que a área disponível para a agropecuária era “negativa”.
Já o outro relatório, com o nome “A Dinâmica das Florestas no Mundo”, afirmava que nos últimos 8 mil anos o volume de florestas no Brasil teria saltado de 9,8% para 23,3% em relação ao total existente no planeta.
No que esses dados influenciam? No dia 6 de julho de 2010, a comissão especial destinada a votar o relatório sobre o projeto de Lei 1876 de 1999, aprovou o substitutivo de Aldo Rabelo por 120 votos a favor e cinco contra. Quem saiu ganhando? Como sempre, a base ruralista.
A minha conclusão é que a bancada ruralista não tem interesse em criar uma cultura ecológica sustentável, e sim garantir o seu império através de dinâmicas capitalistas selvagens, favorecendo práticas de estímulos ao desmatamento.
Ausência de conhecimento
E como no Brasil, onde a prática clientelista afeta a maioria dos militantes partidários por se interessar apenas nos seus ganhos políticos, a situação se complica completamente. O princípio do respeito ao patrimônio natural é completamente desvinculado dos debates contidianos. Tudo porque falta conhecimento básico sobre o problema.
Recentemente, o nosso professor de Educação Ambiental e Ética Ambiental (João Gilberto, doutor em sociologia, em história e em psicologia) nos passou um exercício focado no artigo da Lei 9795 (Lei da educação ambiental).
Um dos pontos que me chamou a atenção foi o Art. 2º que diz: “A educação ambiental é um componente essencial é permanente da educação nacional, devendo estar presente, de forma articulada, em todos os níveis e modalidades do processo educativo, em caráter formal ou informal”.
Achei o art. 2º bastante interessante, pois o seu foco se direciona em valorizar políticas públicas na área ambiental; principalmente, na sua apresentação sobre a democratização da informação e formação das pessoas.
Esse princípio, cooperativo na sua extensão social, de ampliar e formatar na sociedade propostas educacionais é, sem dúvida, uma senha para construírmos uma realidade (menos superficial e mais racional) que nos permita ter melhor qualidade de vida. Mas será que isso vai demorar acontecer de fato?
A legislação existe! Mas ela consegue ser aplicada na prática, em um país emergente, com forte impulso consumista? Ou melhor, os efeitos da lei são reais?
A atual atmosfera de valores, a maioria das pessoas não pensa em viver com o essencial e sim com a quantidade de bens materiais. O que reforça a tese da ignorância sobre o tema. Qual o conceito de ignorante aqui? É quando uma pessoa só tem capacidade de olhar a si mesma e não se permite uma visão ampliada do exterior. Ou seja, não sabe coixistir.
Se de um lado há professores, ecólogos, ambientalistas e vários setores da sociedade, preocupados em encontrar soluções para uma permanência duradoura no planeta, do outro lado temos os predadores (a indústria de armas bélicas, do narcotráfico, da prostituição e de facções criminosas), que não permitem a construção de uma sinergia da valorização do conhecimento.
No aspecto textual, o art.2º incrementa novas perspectivas; mas, contudo, ele poderá vigorar de fato, no momento em que todas as instâncias sociais permitirem em aderir a essa proposta, que tem como meta desconstruir tudo aquilo que traz danos ao bem estar social.
Logicamente esses pontos serão abordados por alguns setores dentro do evento Rio + 20. Nossa turma estará presente. Vamos ver o que acontece.












